O registro das pequenas coisas
Em tempos de iPhone, Instagram e DACTE (Desorientação Aguda Causada por Transtornos Emocionais – diagnóstico recém-descoberto e inventado por mim mesma), é raro eu sentir vontade de pegar na câmera. Mas então, eu tive que testar um novo cartão de memória e me familiarizar, novamente, com algo além do touch de uma tela de celular.

Tive que encontrar motivos e exercitar o olhar. O que acontecia em volta? Nada. Apenas as pequenas coisas: os homens da família reunidos em volta de um violão; a decoração do apartamento do meu pai.
Você clica e, pronto!, aquele momento se tornou importante, digno de registro. Engraçado, não?, como a fotografia agrega tanto valor às coisas, aos momentos inofensivos, mansos e escondidos, que passariam despercebidos pela linha do tempo e espaço. Quanto poder há num clique! E é você que escolhe, só você.

Os cantos e objetos de uma casa guardam um infinito de segredos e possibilidades. Cada um é como se fosse um pedaço da alma de quem ali habita.
Acabaram as “férias” e Outubro já vai tarde. O tempo não pára. E que bom…
Vamos fotografar.





Sacrifício
–”Você tem sua vida inteira programada?”
– “Não, só a semana que vem.”– ela respondeu objetiva. Mas no fundo ela esconde que sempre achou tentador escrever seu próprio roteiro de vida, todo de uma vez. “O meu universo faço eu”, pensa a ‘senhora do próprio destino’.
Só que a verdade é que ela não teria controle algum sobre aquela semana que estaria por vir. Ou sobre qualquer outra. O universo prega peças e tudo escorre pelos dedos. E aquilo que realmente se quer degustar não está no menu.
“My phone’s on vibrate for you. God knows what all these new drugs do”. Vamos cirandar em volta da fogueira, celebrando as escolhas e os acasos?
Ela quer beber o mundo de uma vez, mas se afoga, e sente-se presa numa armadilha construída por ela mesma. Irônico, não?
Nesses dias, nem o mar cura. Porque o que cura é o que mata. E o que mata não tem na farmácia, tá em falta. Serve alguma outra droga?
O que mata é o pulo, é o salto! Onde está o precipício? Jogue-se logo de uma vez, menina! Pronuncie as palavras mágicas e faça seu ritual. E, aí sim, tome as rédeas do que está por vir: exorcize.
Foto: Dree Hemingway for ManiaMania “Modern Utopian” Campaign by Stacey Mark
I feel it all!
“What do you feel!?”– gritou Leslie Feist em uma das músicas mais aguardadas da noite. Uma das minhas favoritas. Porque eu também sinto tudo ao mesmo tempo agora. “I feel it all. The winds are wide, wild car inside”
E atrás do fotógrafo de blusa branca pode-se ver um gnomo saltitante exorcizando suas emoções todas de uma vez, em uma só canção.
É saudável admitir: é a gente mesmo que parte o próprio coração.
Paciência
Todas as músicas que não consigo ouvir sem chorar, todas as lembranças que se embaralham na minha cabeça sem eu pedir. “Como você está hoje?” — eu pergunto, tentando esconder quem realmente está no fundo do poço. Mergulhemos, então!
Uma cartomante, ou um psicólogo? “Tempo resolverá melhor”. Tempo é de graça, né? “Mas calma, calma, segue seu coração”. São tantos os conselhos que se escuta! Mas vamos admitir: conselho de nada serve, de nada cura.
Ah, mas já os conselhos vindos da alma… São confiáveis, mas também cheios de pegadinhas! É bom tomar um certo cuidado. Eles te enganam, te seduzem com um oásis para que você tenha coragem de agir e ir em frente. Mas não há oásis algum. Foi tudo uma miragem. E aí você fica igual gato sem bigode, cego em tiroteio. “Cadê a água, a abundância? Por que ainda estou nesse deserto sem fim!?”
O véu sobe e você entende algumas coisas. Outras, você espera. Paciência.
A música toca para salvar um dia sem cor, daqueles bem parados e sem surpresas. Eu sento de forma deprimente no chuveiro e me pergunto “O que eu fui fazer!?”
E aí, chega a hora das vozes internas da alma: “Você vai sobreviver” ; “A vida continua! A vida continua!”
A vida de fato continua — e que notícia maravilhosa, não?
“A vida é tão rara…” E se continua, você já é um vencedor.
Mais tarde

Às vezes quero apenas a simplicidade das ondas. O Universo é simples. Ele funciona sem firulas. Coisas explodem, se desintegram e depois, recomeçam. O Universo é um ciclo. Simples e objetivo, ao qual parecemos não pertencer. Porque somos tão cheios de vertentes… E muitas vezes, ainda assim, não saímos do lugar.
O Universo acontece; segue seu rumo. A Natureza alcança sempre sua meta. Não há complicações. O vai e vem é eterno, e a gente aqui, sofrendo por coisa pouca. A Natureza explode e ninguém vê, ou aprende com ela! Vamos observar… E respirar.
O Universo é simples.
É você que tem
Tão linda, a canção que embala a madrugada. Ela me pegou de surpresa no fim de tarde e perdura até então, pois lá no fundo meu coração batendo pede o repeat. Queria eu ter escrito uma canção tão bonita assim…
Essa música me faz pensar que talvez cantar me salve das noites sem fim. E me faz pensar também que há luz no fim do longo túnel da espera. E apesar de falar de amor, ela embala meu sono com sua valsa. É minha lullaby, que fala de um mundo distante, onde fantasias são reais e os finais são felizes.
E aos poucos, meu coração aflito e manso pede para dormir.



